Fundamentos do compliance: O que é compliance? O que é um programa de Compliance? – Parte 2

Nesse segundo episódio do quadro, Fábio Moreno conversa com Rogéria Gieremek sobre os aspectos conceituais do compliance e os primeiros passos em sua implementação. Com exemplos práticos, a conversa trata de temas como modificar a cultura ética da empresa, o papel do compliance na contratação e os reflexos do compliance nas pessoas.

Parte 1: https://youtu.be/B5oJDFlPDzs

Gostou do vídeo? Curta e compartilhe!
Inscreva-se no canal e acompanhe mais vídeos dessa série!

A entrevista:

Rogéria Gieremek: então, aí esse moço pediu demissão uns dias antes com essa história triste do pai doente e os quatro que ficaram que eram da mesma patota, foram demitidos por justa causa. Três não abrirão nada, foram demitidos. A última moça, que era uma mãe solteira, que estava com muita dificuldade em sustentar um filho de 10 anos, que me cortou o coração mesmo, conversando com a moça. Porque você via que ela tinha entrado de gaiata no navio totalmente, ela se deixou encantar pelo rapaz. Porque ele era o “charmozão“, e o que mais me doeu, é que ela falou “eu devia ter desconfiado dele, ele era o único que trazia comida boa”. Todos eles eram pessoas muito simples e para economizar o ticket eles levavam comida de casa, marmita. Todo mundo levava comida simples, o que tinha em casa, mas ele não, a dele era comprada, ele levava comida boa. Quer dizer, ele não era parte daquilo, ele era ser um ser estranho, mas ela falou “eu devia ter desconfiado porque ele é que levou todo mundo na ‘vibe’ dele, no bico, na conversa“. Fez todo mundo fazer as coisas do jeito que ele queria. Ele convidava para sair: “vamos tomar uma cerveja” / “ah, não, não posso, estou sem dinheiro, hoje é dia 20 a gente só recebe…” / “não eu pago, só uma cervejinha, eu pago para você!“. Então ele levava as pessoas para sair, ele falava: “ah, poxa, está passando um filme super bom, vamos lá no cinema” / “poxa, não posso” / “mas, eu pago para você”, aí depois ele acabava de uma maneira muito sutil cobrando o favor, mas de uma maneira sutil: “passa isso aí para mim!“, e com isso ele conseguia os benefícios que ele queria.

Fábio Moreno: Na verdade nós podemos dizer que nós temos as pessoas que são incorruptíveis… os 10%, as pessoas que nascem com a mente, ou pelo menos se postam diante da situação com a mente voltada para tirar vantagem, e aqui tem uns 80% das pessoas que são maleáveis. E acho que o compliance deve atuar aqui!

RG: O compliance tem que atuar em todas as pontas, mas, principalmente aqui, porque esse é o pessoal que vai variar de acordo com a música que está tocando. Eles pensam assim: “eu não vou ser a única freirinha aqui neste bordel, eu vou fazer o que todo mundo está fazendo, todo mundo aqui está se dando bem, todo mundo aqui está dando uma arredondadinha no recebido do taxi, o taxi deu 18, e todo mundo faz o 1 virar 4, só eu que vou cobrar 18? Eu vou fazer uma ‘cadeirinha’ e vou cobrar 48, são 30 reais a mais no meu bolso, no mínimo é um almoço muito mais gostoso que vou ter na semana com a família talvez no final de semana”, isso é uma questão que precisa muito ser trabalhada muito o tempo todo e aí eu digo que entra o RH! O RH tem que ser um parceiro muito firme e constante da área de Compliance. Eu até escrevi um artigo uma vez sobre essa proximidade, porque quem ajuda no processo de seleção é a área de recursos humanos. Então, eles podem ajudar na seleção para aumentar esta ponta daqui, que é a ponta dos incorruptíveis, eles têm as ferramentas para saber como que você faz para fazer mais pessoas que tenham esses valores sólidos, valores morais, éticos, para trabalhar na empresa, diminuir ao máximo o número daqueles outros daquela outra ponta. Só que aqueles, normalmente eles trazem um grau de sociopatia, tem sofisticação no dissimular, eles vendem o que eles quiserem, eles se passam por outra pessoa, por outro tipo de caráter. Mas aí é que entra justamente os profissionais que têm habilidade para detectar isso.

FM: Então você acha que o teste de integridade no RH na contratação seria algo desejável na empresa?

RG: Eu não tenho dúvida com relação a isso!

FM: Será que as empresas fazem isso?

RG: eu acho que não! Porque eu acho que não tem esse foco. Eu acho que o foco é muito mais nos conhecimentos, habilidades e atitudes esperados para aquela função técnica que está sendo contratado. Se você vai contratar um advogado você espera que ele escreva bem, que ele tenha bons conhecimentos técnicos, que ele tenha feito uma boa faculdade, então eu acredito isso, que o compliance tenha que trabalhar muito próximo do RH na seleção de pessoas, para selecionar pessoas que tenham muito sólidos os valores, que representem justamente aquela solidez moral que a gente busca para fortalecer o número dos incorruptíveis, diminuir o número daqueles que entram já com a ideia da maldade e, principalmente, para trazer para esse ‘bolo do meio aqui‘ a certeza de que se eles atuarem bem, se eles demonstrarem que eles têm também sólidos valores que eles serão recompensados, porque a empresa vê isso e valoriza esse tipo de comportamento.

FM: Poderíamos dizer que na verdade o compliance é esse setor dentro da empresa, que busca sim, fazer com que a empresa cumpra as leis, as normas, mas ao buscar que faça isso ele também tenta criar uma cultura do compliance.

RG: Sem dúvida, é uma cultura! Generalizada!

FM: E aí entra aquela questão, Rogéria: “fazer treinamento uma vez ao ano, será que você consegue passar uma cultura, extraindo da alta direção da empresa quais são os valores da empresa, para você passar para todos os funcionários, muitas vezes para pessoas que jamais tiveram contato com esses valores? Será que um treinamento uma vez por ano durante quatro horas você vai fazer uma cultura na empresa?

RG: Na verdade tem que ser periódico, não basta que seja uma vez ao ano e não pode ser um treinamento formal, você tem de fazer doses homeopáticas você tem que toda vez passar uma mensagem, então, seja um comunicados, seja um e-mail, seja um desenho, alguma coisa que seja lúdica, você pode dar uma caneca, um brinde, qualquer coisa, é uma ideia muito boa aqui eu ouvi falar e que me parece que não tem um custo tão alto assim, dependendo é claro do tamanho da empresa, é, por exemplo, o presidente da empresa gravar uma mensagem nesses telefones que tem serviço de mensageria, e aí, no dia seguinte, todos os empregados chegam e tem lá uma mensagem, você vai ver quem é a mensagem e é do seu presidente, e ele falando alguma coisa sobre compliance, ele pode ser um comentário sobre alguma coisa que aconteceu no país, na véspera, ele pode simplesmente falar: “Eu quero te lembrar que aqui nessa empresa a gente só aceita negócios éticos, limpos! Eu sou o presidente da organização, e eu quero te dizer que eu prefiro perder negócio hoje para ganhar sustentabilidade nessa empresa, para saber que nós vamos ter empresa entre os próximos 30, 40, 100 anos, mas uma empresa limpa, uma empresa digna, uma empresa que nós vamos ter muito orgulho de trabalhar e de contar para os nossos filhos que nós trabalhamos aqui que nós ganhamos nosso dinheiro honestamente. Vocês contem comigo! Vocês contem com o departamento de compliance, contem com o departamento jurídico, com a auditoria! Qualquer problema temos a linha para denúncias, perguntas fiquem à vontade, mas, por favor, não se esqueça! Eu só quero negócios limpos!

FM: Então, Rogéria, na verdade o que a gente está falando é que além da área do RH que é parceira do compliance nós temos que ter também a área da comunicação muito parceira do compliance. Porque a comunicação, como você falou, é parte dela essas formas de comunicação, como o ligar o presidente para deixar alguma coisa, porque se a comunicação não estiver dentro, por mais que o presidente tenha boa vontade, não é do Méier dele saber como disseminar isso, faz parte também dessa questão da área comunicação. Esses dias nós tivemos um NEWS aqui falando sobre essa questão que a gente também já tocou, com o que você faz, você tem 10% corruptíveis, incorruptíveis os 10% que são mais tendentes à corrupção e os 80% que você vai para lá e para cá, e nós tocamos no assunto de você beneficiar ou agraciar pessoas que tenham boas ações. Eu queria saber a sua opinião sobre isso.

RG: É muito difícil você estabelecer um standard uma coisa fixa, em todos os casos de premiar, em nenhum caso eu devo premiar. Me parece que como uma linha geral eu entendo que, toda boa ação deve ser premiada e toda ação ruim deve ser punida. Em linhas gerais, aí vamos a questão do compliance. Quando o compliance é eficaz? Você tem certeza que aquela empresa vai seguir à risca todas as regras, quando você amarra o bônus do diretor ao atingimento das metas de compliance. Então, o que acontece, ele vai perder os bônus anuais dele se, por exemplo, ele não tiver 100% dos empregados elegíveis, treinados, se ele tiver desvios, se tiver fraude por problemas de compliance, ele vai perder o bônus dele anual. Ele vai lutar com todas as forças para garantir que o “tone at the top” seja disseminado em todas as reuniões que ele fizer com a equipe dele. Ele tem reunião semanal, ele vai ter “o minuto do compliance“, ele vai abrir a reunião quase como uma oração, ao invés de todo mundo dar as mãos e rezar um “pai nosso”, todo mundo vai abrir a reunião e ele vai dizer: “Bom, gente! Eu queria comentar com vocês que nós tivermos uma ocorrência na base X, aconteceu tal coisa, quero dizer para vocês que nós tivemos tal atuação, tal área foi lá, pegou e aconteceu, essa pessoa foi demitida por justa causa, nós chamamos a polícia, saiu algemada“. Ele vai passar a mensagem! Porque é interesse dele! Obviamente que ele não pode ser injustiçado, então ele tem que garantir que esteja fazendo o papel dele, ele não pode ser responsabilizado por uma atitude irresponsável e criminosa de uma pessoa que, sabendo de tudo, que era o correto a fazer, resolveu fazer errado, mas ele tem que mostrar que ele treinou, e ele insistiu, ele falou todas as vezes que ele pôde, e mesmo assim, aquela pessoa isoladamente, individualmente, resolveu atuar, em sentido contrário, mas não por culpa dele. Ele fez a parte dele. Então, aí tudo bem! Aí ele vai receber os bônus dele. E se a área dele atingiu 100% de treinamentos de compliance e todos passaram, sem necessidade, por exemplo, de um treinamento presencial, se não tivemos nenhuma ocorrência, ou se as ocorrências que aconteceram foram prontamente resolvidas, há muitas maneiras de você criar indicadores e premiar as pessoas daquela área, sim! Sem manipulação! Eu não vejo problema nenhum nisso, não me parece que isso foi levado a sério você não tem nenhum tipo de inconveniente com isso.

FM: Eu concordo com o “dever ser“, no direito a gente estuda muito isso, aquilo que é o correto e que deveria ser, e aquilo que é. Então, no “dever ser” ninguém deveria receber um prêmio por fazer algo correto, tudo bem, eu entendo essa premissa! Mas, nós temos que lidar com a realidade! E olhando para o passado é muito fácil compreender, vamos pegar um caso que é comum toda a população, todo mundo sabe! Eu sou de uma época que os meus pais não usavam cinto de segurança. Não colocavam o cinto de segurança no carro. Isso veio depois, com a aplicação de multas, que se você não estivesse com cinto de segurança, você ia ser multado. Quando eu fui tirar a carta, eu já colocava! Por quê? Porque você não conseguia sair, antes de ligar você já coloca! Você tem uma norma que quer introjetar um comando moral à população ele vai faz isso por meio da sanção. Entretanto, depois de um tempo, aquilo está introjetado. E as pessoas começam a fazer aquilo, sem precisar, talvez, de um bônus ou alguma coisa.

RG: Agora, nós somos seres humanos! E o ser humano quer ser reconhecido! Se você tem uma equipe. A sua equipe faz um bom trabalho? É obrigação dela? Ela ganha salário para isso! Ninguém ali é voluntário! Ninguém é voluntário! Todo mundo está ali para ganhar salário, alguns ganham bem, outros não ganham tão bem, mas todo mundo está ali por um salário que concordou em receber. Você não fala que vai a pagar mil e aí a pessoa recebe 400… não! Você fala que vai pagar mil, você paga mil! Se ela vai receber líquido um pouco menos por causa dos impostos e tudo, mas o que foi combinado é o que está sendo honrado! Então, nessa perspectiva, você não precisaria dizer: “bom trabalho! Nossa, gostei do que você fez hoje!”.

FM: Exato, ele fez porque fez, ganhou dinheiro e não tem mais nada para receber.

RG: Por que é justo, “fair enough!“, está recebendo exatamente aquilo que nós combinamos. Mas eu vou falar até por mim, o meu primeiro chefe e diretor jurídico que até faleceu recentemente …

CONTINUA…

icomply-wp

View all posts

Add comment

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *